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Gosto de alguém com Perturbação de Personalidade Borderline... E agora?


A Perturbação de Personalidade Borderline é uma doença grave que conduz a uma visão “tudo ou nada” da realidade (totalmente boa ou má, oscilando entre um extremo e outro), à sensação crónica de vazio ou perda de identidade, com mudanças de humor extremas e rápidas. As pessoas com esta perturbação agem impulsivamente e o seu medo de abandono leva, muitas vezes, a que ajam em relação aos outros com excesso de crítica e culpabilização. Algumas pessoas com esta condição podem magoar-se propositadamente ou mesmo considerar o suicídio como opção para fugir a todo o sofrimento que vivenciam.

Geralmente, o mais complicado de compreender no comportamento das pessoas com Perturbação de Personalidade Borderline não é o “quê” mas sim o “porquê”. Esta questão é a que mais atormenta a família ou pessoas próximas que, apesar de conseguirem compreender os sintomas do problema, grande número de vezes, sentem dificuldade em compreender as razões que conduzem a pessoa com a perturbação a reagir como reage.

Ser ou estar próximo de uma pessoa com Perturbação de Personalidade Borderline é algo muito intenso e que requer muita energia. A família descreve muitas vezes a situação como vivendo numa constante montanha russa ou como receando, a todo o momento, qualquer reação que possa acontecer. As pessoas próximas referem que se sentem alternadamente perseguidas ou rejeitadas, constantemente postas à prova, sem saber muito bem porquê. É muito frequente que as pessoas próximas de alguém com a perturbação acabem por se acostumar de tal maneira a este comportamento que pode ser abusivo, que começam a pensar que é um comportamento normal. São muito frequentes sentimentos de culpa, vergonha, depressão, exaustão, isolamento e desespero e são vários os desafios que têm de ser ultrapassados para conviver com alguém com esta problemática.

Assim, se tem na sua vida alguém próximo com Perturbação de Personalidade Borderline, é muito provável que se sinta zangado (consigo e com o outro, com o sistema de saúde, com o destino...); que se sinta sem energia, que se sinta esgotado e levado ao limite; que sofra pela expectativa de que a pessoa com a perturbação seja aquilo que quer que ela seja (filho feliz, cônjuge afetivo, irmão próximo ou um progenitor afetuoso); que receie pela sua segurança física; que questione o seu valor; que sinta desconforto nas outras relações familiares; que esteja a passar dificuldades económicas; que se sinta sempre num equilíbrio precário entre as suas necessidades e as da pessoa com Perturbação de Personalidade Borderline; que tenha de lidar com algum estigma e que a própria família e amigos se afastem; que se sinta responsável pela segurança da pessoa com a perturbação.

Partilhar a história que se está a viver ou ouvir histórias de outras pessoas que passaram por situações semelhantes, poderá trazer grande alívio. A ajuda terapêutica para o próprio e uma adequada compreensão e ajustamento das pessoas próximas poderão permitir uma vida em comum frutífera e com qualidade.

Diferentes tipos de relação colocam desafios diferentes. Quando há um problema numa relação, ambas as pessoas necessitam de se envolver para que este se resolva. É, por isso, que o envolvimento da(s) pessoa(s) próxima(s) é tão importante para a estabilização e estabilidade da pessoa com Perturbação de Personalidade Borderline.
http://www.psinove.com/a-equipa/catarina-janeiro

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