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A sexualidade moderna: pornografia online, redes sociais e sexting

 
Ao longos dos últimos anos, temos assistido ao crescimento exponencial da pornografia através da internet. Longe vão os tempos em que esse tipo de conteúdo era pago e dependente do aluguer num clube de vídeo. Hoje em dia, a pornografia está plenamente disseminada, de forma gratuita e ao alcance de qualquer um (incluindo de menores, com tudo o que isso implica). Esta pode até ser benéfica, tanto numa relação amorosa como individualmente - se usada no contexto certo e em quantidade adequada.

É aqui mesmo que podemos encontrar a raiz da preocupação: contexto e quantidade. É cada vez mais comum recebermos pessoas que procuram a ajuda da psicoterapia para lidar com perturbações sexuais criadas ou reforçadas pelo consumo de pornografia. Desejo sexual hipoativo (falta de líbido), vaginismo (dificuldade da mulher em tolerar a penetração devido a contrações involuntárias e persistentes dos músculos do períneo ligados ao terço inferior da vagina), anorgasmia (inibição ou grande dificuldade em a mulher atingir o orgasmo), perturbação da excitação sexual (dificuldade em adquirir ou manter um nível de excitação adequado para a consumação do ato sexual e geralmente ligada à lubrificação vaginal) no caso das mulheres e ejaculação precoce (que ocorre antes, no momento na penetração ou logo após, limitando a satisfação sexual), disfunção eréctil (dificuldade recorrente em ter ou manter uma ereção adequada para e no ato sexual), anejaculação (orgasmo sem ejaculação) e desejo sexual hipoativo nos homens são exemplos de problemáticas sexuais que podem ter os conteúdos pornográficos em pano de fundo. No essencial, temos razões para nos preocuparmos quando dependemos da pornografia para ter excitação e prazer sexual.

À medida que a pessoa a usa para ter prazer físico e psicológico, o seu cérebro começa a criar ligações progressivamente mais fortes em direção a esse tipo de estímulo. A grande quantidade de informação que chega aos nossos sentidos tem um tremendo potencial para criar uma adição e um problema de controlo de impulsos, se recebida muito frequentemente. Assim, a libertação de serotonina (neurotransmissor ligado ao bem-estar) e de dopamina (neurotransmissor relacionado com o sistema de recompensa) poderá ficar mais dependente do estímulo pornográfico e menos dependente do parceiro e até a própria masturbação poderá ser afetada. Nesta sequência, a obtenção de orgasmo em associação frequente com a pornografia conduzirá a um condicionamento. No caso de haver um problema já instalado, o pensar sobre pornografia ou vê-la desencadeará a cadeia “normal” de processos químicos, psicológicos e fisiológicos da excitação humana em detrimento da proximidade com outra pessoa e até consigo mesmo/a. Desta forma, a pessoa consegue ter o controlo total sobre a sua experiência sexual, sem passar pelo compromisso, envolvimento, dedicação e desafios de uma relação amorosa. Como se criasse uma “bolha” onde tudo se passa.

Mais em detalhe, será útil pensarmos na função que a pornografia ganhou na vida daquela pessoa: pode ter começado por ser uma forma de se sentir acompanhada, “compreendida”, de ter prazer quando a vida era tudo menos isso, de conhecer e explorar o seu corpo, de libertar frustração e tensão sexual e, até, de “festejar” momentos positivos do dia-a-dia. Até certo ponto, foi o recurso possível (e acessível) que teve o seu papel. Mas com capacidade para se tornar um obstáculo solitário, acompanhado de culpa, depressão, consumo de substâncias, perturbações sexuais, distorções de auto-imagem, problemas de sono e isolamento social - se fora de controlo.

Se olharmos agora para as redes sociais, sabemos que muitas coisas boas nos têm trazido. Mas os conteúdos de cariz erótico, sexual e ligados ao culto do corpo podem, também, sobrepor-se a todos esses ganhos. Em concreto, o uso desmedido das redes sociais traz dependências psicológicas e biológicas assinaláveis, criando imaginários idealizados que nos impedem de retirar gratificação das relações e de nós mesmos (quando definimos padrões irreais de beleza obtidos de conteúdos online, por exemplo).

Se calhar, e como em tantas manifestações da nossa sociedade, as máquinas afastam as pessoas entre si a nível emocional, sexual e não só. Já nem falando de robots que vão sendo criados para nos darem prazer (e até para nos compreenderem empaticamente numa conversa!) onde a inteligência artificial rompe barreiras, na minha modesta opinião, de cariz ético, moral e humano.

O sexting poderá ser outro destes perigosos efeitos digitais. Falamos da troca à distância de texto, imagens, vídeos e ícones de teor erótico e/ou sexual através do telemóvel. Mais uma vez, falamos da gratificação imediata e simplificada (sem “intermediários” como o compromisso, a comunicação conjugal, a intimidade, a compreensão, a aceitação, a gestão familiar ou os problemas no trabalho). Tal comportamento, em excesso e quando não é acompanhado pelo contacto relacional “real”, torna-se privado, construindo um mundo virtual bem mais ideal que o real. E que vicia. Tal como numa adição a pornografia, o nosso cérebro vai apontar a sua energia para estes estímulos digitais e deixa pouca ou nenhuma para os nossos relacionamentos.

Mas existe solução. A psicoterapia permite adquirir novos padrões cognitivos, emocionais e comportamentais enquanto fornece estratégias práticas e investigadas para a pessoa regular os impulsos e libertar-se da origem e da manutenção da adição. É um trajeto desafiante onde, muitas vezes, descemos um degrau inesperado para subir dois logo a seguir. Afinal de contas, falamos de processos que envolvem a mente e o corpo de forma bem intrincada. Como em tantos casos de pessoas que se libertaram de um problema de controlo de impulsos, esta mudança é sentida como um renascimento psicológico e físico assinaláveis.

A sexualidade é uma excelente forma de obter e dar prazer. De se conectar com os outros e consigo mesmo/a. Que faz tanto bem ao corpo como à mente. Viva-a!

http://www.psinove.com/a-equipa/luis-goncalves

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