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Mensagens

A mostrar mensagens de 2017

O luto no Natal

Faz já um ano que a Psinove teve a oportunidade de falar sobre luto no Natal a uma das publicações com que colabora. Um ano depois, justifica-se voltar ao tema já que será uma das situações mais complicadas que esta época festiva traz consigo.
Antes de tudo mais, o luto é a reacção a uma perda significativa, que exige uma reorganização do significado, sentido e objectivos da própria vida de quem sobrevive. A tristeza acaba por ser uma emoção natural e ajustada à situação de luto, sobretudo quando estamos a falar de uma perda recente: o primeiro Natal após a perda será sempre marcado pela ausência da pessoa que já não está presente. A esta tristeza deverá ser dado o espaço e o tempo para que seja vivenciada de forma adaptativa, promovendo sempre que a pessoa a viver o luto esteja inserida num ambiente contentor e de suporte. Sobretudo, que possa partilhar as suas emoções e memórias com outras pessoas significativas, construindo assim novos elos de significado e organizando a memória d…

Gosto de alguém com Perturbação de Personalidade Borderline. E agora?

A Perturbação de Personalidade Borderline é uma doença grave que conduz a uma visão “tudo ou nada” da realidade (totalmente boa ou má, oscilando entre um extremo e outro), à sensação crónica de vazio ou perda de identidade, com mudanças de humor extremas e rápidas. As pessoas com esta perturbação agem impulsivamente e o seu medo de abandono leva, muitas vezes, a que ajam em relação aos outros com excesso de crítica e culpabilização. Algumas pessoas com esta condição podem magoar-se propositadamente ou mesmo considerar o suicídio como opção para fugir a todo o sofrimento que vivenciam.
Geralmente, o mais complicado de compreender no comportamento das pessoas com Perturbação de Personalidade Borderline não é o “quê” mas sim o “porquê”. Esta questão é a que mais atormenta a família ou pessoas próximas que, apesar de conseguirem compreender os sintomas do problema, grande número de vezes, sentem dificuldade em compreender as razões que conduzem a pessoa com a perturbação a reagir como re…

A pressão dos pares

A pressão de pares ou pressão social diz respeito à influência exercida por um conjunto de indivíduos (ou apenas um), em que se incentiva uma pessoa a mudar os seus comportamentos e/ou atitudes para estar em conformidade com um grupo. Ou seja, é sentido que se deve fazer exatamente o mesmo que os(as) amigos(as) para que possa pertencer-se ao grupo. Os(As) outros(as) coagem-nos ou obrigam-nos a fazer alguma coisa que usualmente não praticamos ou, contrariamente, impelem-nos a deixar de fazer algo que fazemos habitualmente.

Pensar em pressão de pares leva-nos, habitualmente, a uma ideia negativa de ação, mas também pode ser positiva quando refletimos, por exemplo, na possibilidade de intervenção de pessoas para motivar um estudante a melhorar as notas escolares. Se um grupo exibir um determinado comportamento, a probabilidade é imensa dos outros membros adotarem essa conduta.

Pressão social positiva pode ser:
- Quando é possível ser tão bom estudante quanto os(as) amigos(as);
- Um …

Processo de Luto

Desde que ouvi o grito da mãe, agarrada ao telemóvel, que estas nuvens não me deixam ver claramente o que se passa. Quando ela me olhou, estrangulando o telemóvel já desligado, soltou a frase que ficou gravada grave e em câmara lenta: “O pai morreu!”.

Passaram uns dias, desde essa altura. Talvez mais, talvez um mês ou dois. Sei que estava calor, estava um dia tão quente como nunca tinha sentido antes, de tal forma que comecei a sentir-me febril. Talvez as nuvens que me perseguem sejam consequência dessa febre que se me acometeu. Só me chateia que pareça que todas as minhas recordações recentes me apareçam nubladas, que o cinzento invada o plano para amanhã.

Naqueles dias, muitas foram as pessoas que me abordaram, tentando perceber como me sentia e se precisava de alguma coisa. Estive tentado a dizer-lhes, muitas vezes tive de me controlar para não o fazer: ele nunca estava em casa. O meu pai nunca estava comigo, mal me conhecia. Por que razão iria agora fazer-me falta? Porque raio …

Assertividade – A comunicação da aceitação

Diz-se que a sociedade de hoje está muito egoísta mas, na verdade, em muitos momentos, sentimos dificuldade em afirmar o que somos, pensamos e sentimos em diversos contextos (profissional, social, familiar, conjugal, etc.).
De facto, muitas vezes se confunde agressividade com assertividade. A grande diferença entre ambas é que na primeira afirmamo-nos atacando, não dando espaço ao/s outro/s, enquanto, na segunda, somos capazes de reconhecer o outro que é necessariamente diferente de nós com as suas expectativas, crenças e sentimentos, dando-lhe espaço para se manifestar. No fundo, para sermos assertivos temos de aceitar que eu não sou o outro nem o que o outro espera de mim, mas também o inverso, e que os conflitos, sejam internos (connosco próprios) ou externos (com outro/s), fazem parte da existência humana. Além da aceitação da diferença e do conflito, a assertividade pressupõe auto-estima. Ou seja, gostarmos de nós próprios, para termos capacidade e nos julgarmos merecedores de…

(Des)Conversas com adolescentes

Os pais e as mães por vezes queixam-se de que os/as filhos/as mudaram a sua forma de estar na relação com a família, estão distantes e a comunicação é difícil. Para os/as pais/mães é angustiante tentar dialogar e sentir que as respostas acontecem com pouca expressão, sentindo a ausência de vontade de comunicar.

É mais comum esta situação ocorrer com filhos adolescentes. Nesta fase de desenvolvimento, os adolescentes têm mais necessidade de um espaço próprio e, naturalmente, cresce a importância de permanecer mais tempo com quem possuí os mesmos interesses. Na maior parte das vezes, são os pares que têm este perfil identificativo e estas relações com pessoas que possuem ideias comuns é muito salutar para o crescimento psicológico do/a adolescente.

O/A adolescente vivencia, por vezes, esta etapa de desenvolvimento com instabilidade emocional e daí decorre diversas vezes depararmo-nos com mau humor, irresponsabilidade, rebeldia, impaciência e revolta.

Apesar de ser crucial respeitar …

A sexualidade moderna: pornografia online, redes sociais e sexting

Ao longos dos últimos anos, temos assistido ao crescimento exponencial da pornografia através da internet. Longe vão os tempos em que esse tipo de conteúdo era pago e dependente do aluguer num clube de vídeo. Hoje em dia, a pornografia está plenamente disseminada, de forma gratuita e ao alcance de qualquer um (incluindo de menores, com tudo o que isso implica). Esta pode até ser benéfica, tanto numa relação amorosa como individualmente - se usada no contexto certo e em quantidade adequada.

É aqui mesmo que podemos encontrar a raiz da preocupação: contexto e quantidade. É cada vez mais comum recebermos pessoas que procuram a ajuda da psicoterapia para lidar com perturbações sexuais criadas ou reforçadas pelo consumo de pornografia. Desejo sexual hipoativo (falta de líbido), vaginismo (dificuldade da mulher em tolerar a penetração devido a contrações involuntárias e persistentes dos músculos do períneo ligados ao terço inferior da vagina), anorgasmia (inibição ou grande dificuldade em…

Perturbação Borderline

Ainda agora acordei e já sei que o dia vai ser uma seca. Esta sensação de nada, de vazio, irrita-me a um ponto que me torno agressiva com as coisas mais insignificantes. As pessoas chateiam-me, a vida dá-me raiva e não consigo pensar em mais nada senão na intensidade desta zanga imensa, que me aperta por dentro, deixando tudo vazio. Morto.

É provável que já tenha passado mais do que uma hora desde que me deitei neste sofá e me deixei ficar, perdida de mim, perdida de pensamentos lógicos. É só sentir. Sinto demasiado o nada dentro de mim. Os cigarros sucedem-se criando um enjoo que só incentiva a minha letargia. Há uma réstia de lógica dentro de mim que tenta atingir-me, dizendo-me que tudo melhoraria se eu comesse alguma coisa, se não continuasse a fumar em jejum, se tomasse banho e vestisse uma roupa fresca. Mas esta miséria agarra-se-me à existência e não encontro a luz que consiga iluminar o caminho daqui para fora. Fico.

O aborrecimento está quase a matar-me e a infelicidade disso…

Silêncio em terapia

Em psicoterapia, a forma de intervenção e de promoção da mudança assenta, muitas vezes, no diálogo e na comunicação verbal. Mas, além das palavras, também o silêncio tem um papel importante na construção do processo terapêutico.

No início do percurso como psicólogo, a ideia de o silêncio ser parte integrante das sessões, pode parecer desafiante. Não se consegue antecipar como se vai gerir o “estar em silêncio” com alguém sentado diante de nós. Ao mesmo tempo, há o receio de que estar em silêncio seja consequência de não saber o que responder ao paciente como se, como terapeutas, tivéssemos de ter sempre uma resposta através das palavras.

Ao longo do caminho que fazemos com os pacientes durante as sessões, aprende-se que o silêncio pode ser uma resposta ou até a única resposta que o paciente necessita. Pode ser uma escolha e não significa que não poderíamos ter muitas palavras para responder. Escolher responder silêncio pode ser a forma mais respeitadora das necessidades do paciente, em …

A Importância da História na História das Pessoas

"Aqueles que não conhecem a história estão fadados a repeti-la." Edmund Burke
Sou fascinado pela evolução cultural do ser Humano, dos povos, da sociedade, de Portugal, das suas pessoas e dos seus costumes.

Sou dos que acha que não podemos perceber correctamente o que é a psicoterapia de hoje sem falarmos das teorias de Freud, Piaget, Skinner ou Wundt. Ou falar destes sem conhecer Platão, Sócrates ou Hipócrates, Descartes, Kant ou Hobbes.

A evolução e a sua história explicam, em grande parte, a actualidade e, por sua vez, perceber a actualidade deverá ser um exercício de percepção do caminho percorrido pela história.

Vemos isto no nosso dia-a-dia nos provérbios e dizeres que usamos. Alguns contraditórios, como “quem espera sempre alcança” ou “quem espera desespera”, outros em desuso, como “em Abril águas mil”, outros, até, já explicados pelo que sabemos hoje ser verdade, como “laranja de manhã é ouro, à tarde é prata e à noite mata”, outros com ensinamentos que ainda hoje são…

Psicose

Porque nos conformamos ao mal?

Esta semana tivemos oportunidade de assistir à terrível lesão da tenista Betthanie Mattek-Sands no Torneio de Wimbledon. E, talvez pior, vimos também a passividade com que as pessoas encararam a dor e os pedidos desesperados de ajuda da tenista... O conformismo é uma forma de influência social, sendo esta a capacidade de uma pessoa ou grupo mudar as atitudes e comportamentos de outras. No essencial, oconformismo traduz-se na alteração de comportamentos de acordo com normas, expetativas e comportamentos das pessoas que nos rodeiam. Esta "pressão" pode ser real ou criada pelo próprio. Aqui relembro as famosas experiências de Soloman Eliot Asch, em 1951, e que foi um psicólogo polaco de orientação gestalt nascido em 1907 e falecido em 1996. Verificou que existe uma forte tendência para as pessoas responderem e agirem de acordo com a maioria, mesmo que não concordem com as suas opções! Em muitassituações de emergência, como aquela vimos no Torneio de Wimbledon, as pessoas ficam …