domingo, 6 de agosto de 2017

A Importância da História na História das Pessoas

"Aqueles que não conhecem a história estão fadados a repeti-la."
Edmund Burke

Sou fascinado pela evolução cultural do ser Humano, dos povos, da sociedade, de Portugal, das suas pessoas e dos seus costumes.

Sou dos que acha que não podemos perceber correctamente o que é a psicoterapia de hoje sem falarmos das teorias de Freud, Piaget, Skinner ou Wundt. Ou falar destes sem conhecer Platão, Sócrates ou Hipócrates, Descartes, Kant ou Hobbes.

A evolução e a sua história explicam, em grande parte, a actualidade e, por sua vez, perceber a actualidade deverá ser um exercício de percepção do caminho percorrido pela história.

Vemos isto no nosso dia-a-dia nos provérbios e dizeres que usamos. Alguns contraditórios, como “quem espera sempre alcança” ou “quem espera desespera”, outros em desuso, como “em Abril águas mil”, outros, até, já explicados pelo que sabemos hoje ser verdade, como “laranja de manhã é ouro, à tarde é prata e à noite mata”, outros com ensinamentos que ainda hoje são pilar da nossa acção, como “quem tem telhados de vidro não atire pedras ao vizinho” ou “de grão a grão enche a galinha o papo” mas, todos eles, tiveram um papel importante na interpretação da nossa cultura em determinado momento e é assim que devem ser interpretados.

Da mesma forma, os estereótipos e preconceitos vão mudando ao longo dos tempos, representando um pensamento colectivo de sentido e futuro da sociedade. É importante perceber que o conjunto de atitudes globais que todos temos hoje irão ter repercussões no futuro, boas e/ou más.

É desta forma que devemos encarar cada pessoa, como um ser único, como o resultado de todas as suas experiências, de todas as suas emoções, de todas as suas interacções consigo própria e com os outros, bem como com a sua cultura. Mais do que informativa, esta história de vida e de vidas tem de ser respeitada e cuidada, sendo parte integrante da experiência emocional da pessoa e, por isso, de enorme relevância para a terapia. Perceber a história, o caminho que levou a pessoa ao que é hoje e poder, com ela, ajudar a trilhar o caminho que aí vem, deve ser este o objectivo central de qualquer processo psicoterapêutico.


http://www.psinove.com/a-equipa/tiago-fonseca

domingo, 23 de julho de 2017

Psicose



Sinceramente, não consigo compreender como existem pessoas tão perturbadas que retiram prazer ao fazer a vida negra aos outros. Desde que comecei a perceber que a vida não é o mar de rosas que nós, ainda crianças inexperientes, esperamos que seja, que comecei a perceber que existe nas pessoas esta inexorável vontade de causar dano na vida do outro, como se a sua existência sem este requinte se tornasse demasiado vazia. Nunca achei que a minha vida fosse de especial relevo, que pudesse interessar a terceiros, mas sou levado a admitir que existe algo de especial em mim que faz com que os outros me vejam como alguém a quem devem temer. Ou vigiar. 

Não posso mais fazer-me despercebido da vigilância que os vizinhos têm feito: cruzam-se comigo no elevador do prédio, sorrindo descontraidamente mas estudando todos os meus gestos e, com certeza, seguindo-me nos percursos que faço ao sair de casa.

Tenho evitado ir à igreja, que é geralmente o meu destino quando saio à porta de casa. Quando não ouço ruídos suspeitos e não me cruzo com alguém, consigo dirigir-me até lá para que possa receber as instruções para levar a cabo as tarefas que tenho entre mãos. Quando percebi que tinha sido escolhido para esta missão de salvar a cidade do cataclismo que há-de chegar, não tive logo a noção de quantos obstáculos teria de ultrapassar para conseguir. Pensei que seria algo ordinário, fazer o que tinha a fazer para depois retomar a minha vida do quotidiano. Mas não. Forças de oposição manifestam-se com intensidade.

É por isso que, face a ruídos fora do comum, ou a presença de alguém do prédio no meu percurso de saída faz com que eu deixe de rumar ao meu destino, para deambular longamente pelas ruas da cidade. Despisto-os desta forma, tentando evitar que obtenham mais informação sobre mim do que a estritamente necessária. Há alturas que, de tão cansado, me sento num banco que encontro pelos caminhos que percorro e deixo-me ficar, tentando vê-los aparecer. Dar-me-ia algum prazer poder confrontá-los, referindo a sua presença em locais tão pouco previsíveis. Seria uma forma de os fazer compreender que já percebi que me perseguem. No entanto, ainda nunca os consegui ver, para os poder confrontar. Apenas ouço as vozes deles e sei que estão por perto. Ouço-os a gritar ordens de uns para os outros, para me encontrarem, para observarem tudo o que faço. Tenho até tido medo que me façam algo de mal. A carga de raiva nas vozes aumenta de dia para dia, deixando-me cada vez mais convencido que têm um plano para acabar com isto. Ou comigo.

Talvez seja melhor deixar-me ficar em casa nos próximos dias. A sensação de perigo aumenta dentro de mim e preciso de fazer algo para ficar mais seguro. A cidade precisa de ser salva e não posso pôr isso em risco. A minha presença será necessária, em alturas chave, para vencer as forças do mal que se tentarão impor. Até lá, tenho de me manter em segurança. O móvel da sala é suficientemente pesado para dificultar uma tentativa de abertura da porta. Já antes achei que alguém poderia ter entrado em casa, um cheiro esquisito e duas ou três coisas fora do lugar chamaram-me a atenção. Também os telefones deverão estar desligados. Qualquer conversa que possa acontecer, será usada contra mim. Tenho de ter cuidado, muito cuidado. Não posso deitar tudo a perder.

Afinal, a vossa vida depende de mim! 


http://www.psinove.com/a-equipa/catarina-janeiro

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Porque nos conformamos ao mal?

Esta semana tivemos oportunidade de assistir à terrível lesão da tenista Betthanie Mattek-Sands no Torneio de Wimbledon. E, talvez pior, vimos também a passividade com que as pessoas encararam a dor e os pedidos desesperados de ajuda da tenista...
O conformismo é uma forma de influência social, sendo esta a capacidade de uma pessoa ou grupo mudar as atitudes e comportamentos de outras. No essencial, o conformismo traduz-se na alteração de comportamentos de acordo com normas, expetativas e comportamentos das pessoas que nos rodeiam. Esta "pressão" pode ser real ou criada pelo próprio. Aqui relembro as famosas experiências de Soloman Eliot Asch, em 1951, e que foi um psicólogo polaco de orientação gestalt nascido em 1907 e falecido em 1996. Verificou que existe uma forte tendência para as pessoas responderem e agirem de acordo com a maioria, mesmo que não concordem com as suas opções!
Em muitas situações de emergência, como aquela vimos no Torneio de Wimbledon, as pessoas ficam "paralisadas" tanto pelo impacto emocional do evento como pelo conformismo (não considerando os evidentes problemas de organização e atendimento médico que observámos nesta situação). Como se, automaticamente, as pessoas considerassem que "alguém irá ajudar" mas sem que ninguém dê o primeiro passo. Curioso é o facto de, quando isso acontece, ocorrer uma poderosa ação e libertação conjunta no mesmo sentido.
Assim podemos explicar muitos dos fenómenos, por vezes, assustadores que encontramos num grupo de pessoas e sua tendência para pensar, sentir e agir de acordo com a maioria. Ainda assim, quanto mais pequeno é o grupo, menor será esta pressão sentida e maior a probabilidade da pessoa agir em consonância com a sua opinião. Seja ela contrária ou não em relação ao grupo.
Olhando de outra perspetiva, podemos pensar que basta o tal primeiro passo para haver um movimento conjunto de mudança. Certamente que conhece casos em que os colaboradores de uma organização, por exemplo, estão insatisfeitos com as condições de trabalho, desvalorização ou pressão exagerada mas, por terem receio das consequências, se reduzem ao silêncio e ao conformismo. Apesar da maior parte sentir que não está bem, ninguém dá o primeiro passo. Dizemos que estamos mal mas não agimos.
No entanto, basta um membro influente agir contra a adversidade e tentar provocar mudança para ter todos consigo. Ou no sentido da melhoria das tais condições, ou rumo à criação de uma nova organização para todos. Grandes revoltas e movimentos grupais têm assim o seu início.
Somos seres sociais, precisamos uns dos outros. Mas que não seja nunca o medo que nos limite a ação, a humanidade e a palavra.

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Anorexia

Foi um alívio fechar a porta de casa e poder regressar ao meu canto, onde ninguém me pode ver ou criticar. O final do ano lectivo está a deixar-me exasperada, não consigo pensar em mais nada senão em estudar. Não seria admissível que as minhas notas baixassem agora, depois de todo o esforço que tenho feito para conseguir uma média que me garanta escolha. Não consigo pensar na hipótese de querer ir para um curso e não conseguir. Tenho-me empenhado para que a média não me restrinja nenhuma possibilidade. Nenhuma mesmo.

É bom apoderar-me da casa assim, vazia de todos. Os meus pais e irmãos ainda não chegaram, o que me dá uma sensação de liberdade que gosto de aproveitar. Passo pela cozinha e bebo dois copos de água. Aqueço a caixa com comida que a minha mãe deixou no frigorífico e coloco-a no prato. Revolvo-a intensamente, com a ajuda de um garfo para o prato ficar convincentemente sujo e vou deitá-la toda na sanita, puxando o autoclismo de seguida. Tem sido bom para mim evitar o almoço. Há já alguns anos que aprendi a saltar o pequeno almoço e o lanche, com pouco resultado porque todos na escola continuam a olhar para mim como a gorda lá do sítio. Durante alguns anos sofri em silêncio mas, de há umas semanas para cá, tomei a decisão que sou eu quem controla o meu corpo, as minhas vontades.

Não tenho notado grandes diferenças, continuo volumosa e flácida. Tenho a certeza que preciso de controlar o jantar também. Apenas quando conseguir ingerir o mínimo de comida possível conseguirei perder esta montanha de quilos que me sobrecarrega. Mas não tem sido muito fácil conseguir comer menos ao jantar. Os olhos atentos da mãe fazem notar que ela repara na menor quantidade de comida que me sirvo. Por isso, depois de todos se terem servido, ela faz questão de acrescentar sempre alguma coisa ao meu prato. Acabo por comer tudo até ao fim e passar um par de horas, de seguida, a fazer abdominais fechada no quarto. Houve um dia que me senti tão culpada, tão falhada, por ter comido tudo, que acabei na casa de banho, com a mão enfiada na boca até à garganta, para deitar cá para fora tudo o que tinha comido. Ficou tudo bem, depois. Achei que poderia ser uma boa alternativa quando a atenção da mãe não me permitisse enrolar a comida no guardanapo.

Vim para casa para estudar mas sinto uma vontade enorme de fazer exercício. A flacidez do meu corpo não pode ser combatida com uma atitude passiva e sedentária. Ponho a cadeira no meio do quarto e começo a subir e a descer a um ritmo acelerado. A partir das 50 vezes começo a transpirar muito e com o coração a bater descompassadamente. Um tontura tolda-me o movimento e tenho de me sentar. O peso a mais não me deixa fazer o exercício que deveria fazer. Penso no copo de leite que bebi de manhã e sinto raiva de mim por ter bebido. Desta forma, nunca conseguirei atingir o meu objectivo. Se não controlar absolutamente tudo o que como, nunca lá chegarei.

Queria tanto ser outra pessoa, noutro corpo, noutro sítio. De vez em quando, falta-me a força para continuar e penso em desistir de tudo. De perder peso, de estudar, de ir à escola. Mas nada disso está ao meu alcance. E eu tenho de continuar estrangulada por esta ansiedade que nunca me abandona. Se eu for estudar, tudo vai melhorar. Se eu conseguir estudar pela noite dentro, dormirei muito melhor e tudo ficará mais fácil.

Só não posso baixar a guarda. Tudo o que tenho de fazer é manter o controlo.


sexta-feira, 23 de junho de 2017

Pensar no antes da Baleia Azul


        Agora que passou o "boom" informativo do chamado jogo online Baleia Azul, parece ser o tempo ideal para falar da sua importância. Não que não fosse importante há uns meses quando se começou a falar dele mas, a quantidade excessiva de apreciações e opiniões sobre o mesmo criou, de forma involuntária, diversa desinformação em vez do contrário, gerando crenças erradas sobre esta situação, não permitindo a atenção focada no necessário em detrimento do acessório.

Muito já foi falado do jogo, das suas características, dos seus objectivos e dos seus resultados. É algo que todos, enquanto pessoas, enquanto sociedade, devemos procurar combater. Para isto, é necessário que, mais do que estar atento às marcas de participação no jogo, esteja atento às marcas que poderão levar alguém a participar.

O jogo em si funciona, apenas e só, sob manipulação. Manipulação esta feita por palavras, emoções, afectos, criando a necessidade de participação no jogo como substituto das necessidades psicológicas em falta no participante. É de tal forma intrusivo e manipulativo que a própria vontade de saída do jogo é contrariada com ameaças aos entes queridos, levando os participantes, dependentes e viciados nesta procura do que está em falta, a levá-las tão a sério que acabam por continuar.

A participação neste jogo é, por isso, uma grande chamada de atenção! Por norma, quem deve ouvir esta chamada não está atento à mesma. É este o ponto de corte, onde as necessidades emocionais começam a precisar de ser satisfeitas e outras formas são pensadas e postas em prática. Este é o ponto onde não queremos que alguém chegue. É por isto que é tão importante perceber o antes e não apenas o depois.

É necessário que dê atenção aos seus filhos, amigos, familiares, que passe uma mensagem de cuidado e acompanhamento para com os seus entes queridos, para com as pessoas de quem gosta. Este jogo em específico afecta, de forma mais directa, os jovens. No entanto, os sintomas e resultados da falta de afecto e da carência emocional podem afectar toda a gente.

No que diz respeito à psicoterapia, a procura de um psicólogo pode ajudá-lo a perceber melhor a forma como as suas próprias necessidades psicológicas são satisfeitas, como é realizada a sua regulação emocional e como está a sua carência a condicionar a forma como se relaciona com os outros, podendo não corresponder às expectativas emocionais dos seus entes queridos. Da mesma forma, pode o participante usufruir de ajuda no caminhar na regulação emocional, descobrindo melhores formas, mais adequadas e adaptativas, de conseguir satisfazer as suas necessidades psicológicas, procurando relações saudáveis consigo e com os outros.

Uma situação destas afecta não só o próprio mas a sua família e todos os que o rodeiam. É, também, importante perceber a importância que a intervenção familiar poderá ter neste tipo de casos, promovendo uma melhor comunicação emocional entre os familiares, colmatando ou evitando situações extremas como a do jogo e potenciando a relação de todos.

É importante cuidarmos dos outros sempre que podemos para não ter de correr atrás. Fazer o que podemos na hora devida, proporcionar o clima emocional adequado e dar resposta à procura de satisfação de necessidades psicológicas próprias e dos outros. Esta é a solução para um bem-estar duradouro e adequado à vida de todos, especialmente das crianças e dos jovens que, se se sentirem amados, respeitados e cuidados, não precisarão de jogos manipulativos para colmatar as suas emoções.


domingo, 11 de junho de 2017

Depressão


Os últimos raios de sol encerram mais um dia de tortura. É pouco depois desta altura que consigo mover-me do sofá, onde passei o dia estendido. Na verdade, fingi para mim próprio que passei o dia a dormir mas isso até teria sido bom. Fiquei preso no limbo entre o sono e o despertar, o sítio de onde não conseguimos sair e onde todos os pesadelos do mundo nos podem atingir.

Tive tempo para reviver, dissecar mesmo, cada momento do dia de ontem. Arrastei-me para o trabalho e fiquei sentado na minha secretaria, a olhar para um monitor agressivo, durante 8 horas. Sim, 8 horas. Não me levantei para ir almoçar, beber café nem mesmo ir à casa de banho. Tinha todos os olhos pousados em mim, todo um conjunto de pessoas a testemunhar a minha incapacidade, pois não consegui produzir uma linha sequer. O meu cérebro, congelado, parece não conseguir perceber grande parte do que se passava ao redor. De tempo a tempos o meu coração disparava, galopante, provocando-me uma angustia que me absorvia por completo, para logo parar e me deixar, extenuado e confuso, de novo no meio do nada.

Os ruídos do escritório irritavam-me de forma intensa. O toque do telefone, os colegas a tossir, os passos das pessoas transtornavam-me. Se, de tempos a tempos, se ouvia um riso ou gargalhada, acometia-me uma dor física inexplicável. Doía-me ouvir.

A caminho de casa, sozinho no carro, apeteceu-me gritar mas não tive força. Apeteceu-me chorar mas logo as lágrimas secaram, evaporadas no deserto que me preenche. Parei o carro, antes de chegar a casa, só para não chegar. O futuro pareceu-me demasiado longo, cabendo em cada hora toda a vida que tenho dentro de mim. O coração a descompassar da vida novamente, a ansiedade e a angustia misturadas num mesmo saco.

Quando cheguei a casa já passava largamente da hora de jantar mas nem sequer conseguia perceber nitidamente se tinha fome ou não. No frigorífico apenas comida estragada, restos acumulados de dias seguidos de comida pronta a comer. No armário, um pacote de batata frita XXL chamou-me a atenção e, mesmo sem pensar, agarrei-o para o levar até ao sofá onde o abri e comi até ao fim, sem pausa ou capacidade para pensar. No final, a agonia. Lancei o pacote para o chão e deitei-me. Um desconforto sem fim invadiu-me: a luz a ferir-me, o silêncio a gritar. Apaguei a luz e liguei a televisão num volume muito baixo. Puxei a manta e tapei-me tentando esquecer-me que existia. Amanhã é sábado, é só preciso deixar-me ficar. Esperar que a paz me atinja, como uma golpe de sorte.

De repente, a campainha. Resisti a levantar-me mas quem quer que fosse estava decidido a fazer-se notar. Ao fim de 5 minutos, resolvi silenciosamente ir espreitar pelo óculo. Assim que o fiz voltei ao sofá, tapando-me novamente com a manta, até à cabeça. Na porta, o meu melhor amigo, o Zé. Tem-me ligado insistentemente mas não consigo atender. Acho que não conseguirei articular palavra se o fizer. Mais 5 minutos e a campainha deixou de tocar. 

Ele também, há-de desistir.


sábado, 3 de junho de 2017

A psicoterapia dos humanos


O que motiva as pessoas a procurar a psicoterapia? A forma mais simples de responder a esta pergunta seria recorrer a uma ideia relativamente comum: a vontade de se conhecerem a si próprias e de ultrapassar dificuldades. E estaríamos, a meu ver, a responder de forma absolutamente correta. No fundo, o desenvolvimento humano é uma constante descoberta da melhor forma de dar resposta a novas fases da vida.

Neste sentido, uma das inevitabilidades da nossa existência enquanto humanos é o facto de não podermos estar preparados para todo e qualquer contexto. O crescimento - não só biológico, como social - implica a nossa constante adaptação e readaptação a novas relações, novos locais, novos desafios. E todos nós, auxiliados pelas nossas experiências anteriores de educação e aprendizagem, dispomos de um leque mais ou menos abrangente de recursos e estratégias para fazer face a essas exigências de adaptação. Contudo, à inevitabilidade da mudança junta-se a possibilidade de ainda não dispormos das competências necessárias para, num dado momento, lidar com ela.

É nestes momentos que as pessoas procuram a psicoterapia. Quando, humanamente, sentem que já tentaram tudo para lidar com uma determinada situação, mas algo falta ou não está a resultar. Não é que não tenham força de vontade. Não é que queiram sentir mal-estar, ou simples confusão. É porque a repetição de padrões outrora eficazes, mas que não estão a ser tão bem sucedidos neste momento, poderá ter abalado a sua motivação e autoestima. E porque, naturalmente, poderão não ter tido oportunidade de treinar essas competências sociais ou emocionais específicas. De aprender a ligar-se a determinadas pessoas ou a deixá-las ir. De aprender a desligar o piloto automático e a conhecer, aceitar e regular as suas emoções. E, pergunto, não será isso profundamente natural? A importância das questões de cada um é, na maior parte das vezes, definida pelo próprio. A dimensão dos nossos problemas é diretamente proporcional ao mal-estar que nos causam.

Dificilmente alguém conseguirá dizer que nunca se sentiu desamparado. Os recursos de que dispúnhamos foram úteis até esse momento, mas era necessário desenvolver outros novos. É por esta razão que a psicoterapia não é para os fracos ou para os doentes. A psicoterapia é para os humanos, porque nenhum humano cresce sem adaptação. E fazê-lo colaborando, em relação com alguém, torna esse crescimento muito gratificante.

O treino de novas formas de relacionamento com o meio e connosco próprios leva tempo, e não poderia ser de outra forma. Uma mudança profunda e duradoura, que alie o autoconhecimento à prática, exige um processo psicoterapêutico com uma regularidade mais ou menos definida e acordada entre terapeuta e paciente. Não é correto exigir uma frequência semanal a quem não tem possibilidades de a pagar, tal como não é possível oferecer um processo em que o paciente não é capaz de prever, a partir da instituição, quando vai ter uma sessão.

Pessoalmente, tem sido um prazer acompanhar, enquanto estagiário académico, os meus primeiros pacientes. Descobrir com eles o que lhes faz falta - e por que razão lhes faz falta - tem potenciado não só o seu, como o meu próprio crescimento. O mal-estar ou incertezas que partilham comigo, em conjugação com a sua história de vida, levam-me quase sempre a sentir algo que partilho com eles: “é natural que, nunca tendo lidado com um aspeto tão pesado ou estranho como este, se sinta desta forma”. E, assim, lá vamos descobrindo, em conjunto e em relação, como crescer a partir daqui. Sinto-me grato de cada vez que me confessam que nunca tinham partilhado este ou outro aspeto com mais ninguém. E, ao fazê-lo, ao dar sentido à sua vida, tiram um peso de cima de si próprias e tornam-se donas de si e do seu meio.