sexta-feira, 23 de junho de 2017

Pensar no antes da Baleia Azul


        Agora que passou o "boom" informativo do chamado jogo online Baleia Azul, parece ser o tempo ideal para falar da sua importância. Não que não fosse importante há uns meses quando se começou a falar dele mas, a quantidade excessiva de apreciações e opiniões sobre o mesmo criou, de forma involuntária, diversa desinformação em vez do contrário, gerando crenças erradas sobre esta situação, não permitindo a atenção focada no necessário em detrimento do acessório.

Muito já foi falado do jogo, das suas características, dos seus objectivos e dos seus resultados. É algo que todos, enquanto pessoas, enquanto sociedade, devemos procurar combater. Para isto, é necessário que, mais do que estar atento às marcas de participação no jogo, esteja atento às marcas que poderão levar alguém a participar.

O jogo em si funciona, apenas e só, sob manipulação. Manipulação esta feita por palavras, emoções, afectos, criando a necessidade de participação no jogo como substituto das necessidades psicológicas em falta no participante. É de tal forma intrusivo e manipulativo que a própria vontade de saída do jogo é contrariada com ameaças aos entes queridos, levando os participantes, dependentes e viciados nesta procura do que está em falta, a levá-las tão a sério que acabam por continuar.

A participação neste jogo é, por isso, uma grande chamada de atenção! Por norma, quem deve ouvir esta chamada não está atento à mesma. É este o ponto de corte, onde as necessidades emocionais começam a precisar de ser satisfeitas e outras formas são pensadas e postas em prática. Este é o ponto onde não queremos que alguém chegue. É por isto que é tão importante perceber o antes e não apenas o depois.

É necessário que dê atenção aos seus filhos, amigos, familiares, que passe uma mensagem de cuidado e acompanhamento para com os seus entes queridos, para com as pessoas de quem gosta. Este jogo em específico afecta, de forma mais directa, os jovens. No entanto, os sintomas e resultados da falta de afecto e da carência emocional podem afectar toda a gente.

No que diz respeito à psicoterapia, a procura de um psicólogo pode ajudá-lo a perceber melhor a forma como as suas próprias necessidades psicológicas são satisfeitas, como é realizada a sua regulação emocional e como está a sua carência a condicionar a forma como se relaciona com os outros, podendo não corresponder às expectativas emocionais dos seus entes queridos. Da mesma forma, pode o participante usufruir de ajuda no caminhar na regulação emocional, descobrindo melhores formas, mais adequadas e adaptativas, de conseguir satisfazer as suas necessidades psicológicas, procurando relações saudáveis consigo e com os outros.

Uma situação destas afecta não só o próprio mas a sua família e todos os que o rodeiam. É, também, importante perceber a importância que a intervenção familiar poderá ter neste tipo de casos, promovendo uma melhor comunicação emocional entre os familiares, colmatando ou evitando situações extremas como a do jogo e potenciando a relação de todos.

É importante cuidarmos dos outros sempre que podemos para não ter de correr atrás. Fazer o que podemos na hora devida, proporcionar o clima emocional adequado e dar resposta à procura de satisfação de necessidades psicológicas próprias e dos outros. Esta é a solução para um bem-estar duradouro e adequado à vida de todos, especialmente das crianças e dos jovens que, se se sentirem amados, respeitados e cuidados, não precisarão de jogos manipulativos para colmatar as suas emoções.


domingo, 11 de junho de 2017

Depressão


Os últimos raios de sol encerram mais um dia de tortura. É pouco depois desta altura que consigo mover-me do sofá, onde passei o dia estendido. Na verdade, fingi para mim próprio que passei o dia a dormir mas isso até teria sido bom. Fiquei preso no limbo entre o sono e o despertar, o sítio de onde não conseguimos sair e onde todos os pesadelos do mundo nos podem atingir.

Tive tempo para reviver, dissecar mesmo, cada momento do dia de ontem. Arrastei-me para o trabalho e fiquei sentado na minha secretaria, a olhar para um monitor agressivo, durante 8 horas. Sim, 8 horas. Não me levantei para ir almoçar, beber café nem mesmo ir à casa de banho. Tinha todos os olhos pousados em mim, todo um conjunto de pessoas a testemunhar a minha incapacidade, pois não consegui produzir uma linha sequer. O meu cérebro, congelado, parece não conseguir perceber grande parte do que se passava ao redor. De tempo a tempos o meu coração disparava, galopante, provocando-me uma angustia que me absorvia por completo, para logo parar e me deixar, extenuado e confuso, de novo no meio do nada.

Os ruídos do escritório irritavam-me de forma intensa. O toque do telefone, os colegas a tossir, os passos das pessoas transtornavam-me. Se, de tempos a tempos, se ouvia um riso ou gargalhada, acometia-me uma dor física inexplicável. Doía-me ouvir.

A caminho de casa, sozinho no carro, apeteceu-me gritar mas não tive força. Apeteceu-me chorar mas logo as lágrimas secaram, evaporadas no deserto que me preenche. Parei o carro, antes de chegar a casa, só para não chegar. O futuro pareceu-me demasiado longo, cabendo em cada hora toda a vida que tenho dentro de mim. O coração a descompassar da vida novamente, a ansiedade e a angustia misturadas num mesmo saco.

Quando cheguei a casa já passava largamente da hora de jantar mas nem sequer conseguia perceber nitidamente se tinha fome ou não. No frigorífico apenas comida estragada, restos acumulados de dias seguidos de comida pronta a comer. No armário, um pacote de batata frita XXL chamou-me a atenção e, mesmo sem pensar, agarrei-o para o levar até ao sofá onde o abri e comi até ao fim, sem pausa ou capacidade para pensar. No final, a agonia. Lancei o pacote para o chão e deitei-me. Um desconforto sem fim invadiu-me: a luz a ferir-me, o silêncio a gritar. Apaguei a luz e liguei a televisão num volume muito baixo. Puxei a manta e tapei-me tentando esquecer-me que existia. Amanhã é sábado, é só preciso deixar-me ficar. Esperar que a paz me atinja, como uma golpe de sorte.

De repente, a campainha. Resisti a levantar-me mas quem quer que fosse estava decidido a fazer-se notar. Ao fim de 5 minutos, resolvi silenciosamente ir espreitar pelo óculo. Assim que o fiz voltei ao sofá, tapando-me novamente com a manta, até à cabeça. Na porta, o meu melhor amigo, o Zé. Tem-me ligado insistentemente mas não consigo atender. Acho que não conseguirei articular palavra se o fizer. Mais 5 minutos e a campainha deixou de tocar. 

Ele também, há-de desistir.


sábado, 3 de junho de 2017

A psicoterapia dos humanos


O que motiva as pessoas a procurar a psicoterapia? A forma mais simples de responder a esta pergunta seria recorrer a uma ideia relativamente comum: a vontade de se conhecerem a si próprias e de ultrapassar dificuldades. E estaríamos, a meu ver, a responder de forma absolutamente correta. No fundo, o desenvolvimento humano é uma constante descoberta da melhor forma de dar resposta a novas fases da vida.

Neste sentido, uma das inevitabilidades da nossa existência enquanto humanos é o facto de não podermos estar preparados para todo e qualquer contexto. O crescimento - não só biológico, como social - implica a nossa constante adaptação e readaptação a novas relações, novos locais, novos desafios. E todos nós, auxiliados pelas nossas experiências anteriores de educação e aprendizagem, dispomos de um leque mais ou menos abrangente de recursos e estratégias para fazer face a essas exigências de adaptação. Contudo, à inevitabilidade da mudança junta-se a possibilidade de ainda não dispormos das competências necessárias para, num dado momento, lidar com ela.

É nestes momentos que as pessoas procuram a psicoterapia. Quando, humanamente, sentem que já tentaram tudo para lidar com uma determinada situação, mas algo falta ou não está a resultar. Não é que não tenham força de vontade. Não é que queiram sentir mal-estar, ou simples confusão. É porque a repetição de padrões outrora eficazes, mas que não estão a ser tão bem sucedidos neste momento, poderá ter abalado a sua motivação e autoestima. E porque, naturalmente, poderão não ter tido oportunidade de treinar essas competências sociais ou emocionais específicas. De aprender a ligar-se a determinadas pessoas ou a deixá-las ir. De aprender a desligar o piloto automático e a conhecer, aceitar e regular as suas emoções. E, pergunto, não será isso profundamente natural? A importância das questões de cada um é, na maior parte das vezes, definida pelo próprio. A dimensão dos nossos problemas é diretamente proporcional ao mal-estar que nos causam.

Dificilmente alguém conseguirá dizer que nunca se sentiu desamparado. Os recursos de que dispúnhamos foram úteis até esse momento, mas era necessário desenvolver outros novos. É por esta razão que a psicoterapia não é para os fracos ou para os doentes. A psicoterapia é para os humanos, porque nenhum humano cresce sem adaptação. E fazê-lo colaborando, em relação com alguém, torna esse crescimento muito gratificante.

O treino de novas formas de relacionamento com o meio e connosco próprios leva tempo, e não poderia ser de outra forma. Uma mudança profunda e duradoura, que alie o autoconhecimento à prática, exige um processo psicoterapêutico com uma regularidade mais ou menos definida e acordada entre terapeuta e paciente. Não é correto exigir uma frequência semanal a quem não tem possibilidades de a pagar, tal como não é possível oferecer um processo em que o paciente não é capaz de prever, a partir da instituição, quando vai ter uma sessão.

Pessoalmente, tem sido um prazer acompanhar, enquanto estagiário académico, os meus primeiros pacientes. Descobrir com eles o que lhes faz falta - e por que razão lhes faz falta - tem potenciado não só o seu, como o meu próprio crescimento. O mal-estar ou incertezas que partilham comigo, em conjugação com a sua história de vida, levam-me quase sempre a sentir algo que partilho com eles: “é natural que, nunca tendo lidado com um aspeto tão pesado ou estranho como este, se sinta desta forma”. E, assim, lá vamos descobrindo, em conjunto e em relação, como crescer a partir daqui. Sinto-me grato de cada vez que me confessam que nunca tinham partilhado este ou outro aspeto com mais ninguém. E, ao fazê-lo, ao dar sentido à sua vida, tiram um peso de cima de si próprias e tornam-se donas de si e do seu meio.

terça-feira, 16 de maio de 2017

Quando nem tudo corre bem entre pais e filhos: o que fazer?

A família é muito importante na vida de uma criança ou adolescente. Esta é responsável pela educação, mas é muito mais do que isso: é o grande motor para o adequado desenvolvimento psicológico e para a construção da identidade. É a família que em primeira instância nos saúda com amor, carinho, segurança e afeto. E estes ingredientes são essenciais para a formação da personalidade. Esta relação, entre pai/mãe e filhos/as, pode marcar positivamente ou negativamente o crescimento de cada um de nós.

Mas para que esta relação seja saudável, todos os intervenientes são implicados no processo de equilíbrio e harmonia. Pai/mãe e filhos/as podem fazer a diferença e quando algo não está assim tão bem, a mudança pode iniciar-se por qualquer um dos elementos.

Se a relação com o/a pai/mãe ou com o/a filho/a se torna conflituosa, podem surgir alguns problemas de difícil gestão, mas, quando apenas um deles toma consciência dessas dificuldades, pode tomar a iniciativa de realizar uma abordagem para que existam alterações na dinâmica familiar.

Aqui fica então o que qualquer elemento da família pode fazer e, naturalmente, promover efeitos saudáveis na construção familiar:

- Respeitar e ser respeitado (este nutriente é a base numa relação e pode marcar a transformação da família);
- Ter empatia, ou seja, conseguir colocar-se no lugar do/a outro/a, o que pode implicar escutar e considerar o que o/a outro/a pensa e sente;
- Exercer a capacidade de ser paciente. A impaciência pode levar a comportamentos impulsivos, logo não refletidos, e é essencial pensar antes de agir. Principalmente com a família que são pessoas que têm, geralmente, uma enorme significância afetiva na nossa vida e que não gostamos de magoar;
- Acolher os bons exemplos da família e outros/as adultos/as admirados/as para reproduzir comportamentos adequados;
- Dialogar com a família é de extrema importância e pode solucionar várias divergências que parecem ser missões impossíveis. É benéfico conversar acerca de dúvidas e hesitações;
- Estipular junto da família uma “regra” para todos/as em que, por exemplo, um dia por semana no final do dia, esquece-se a TV, o telemóvel, o computador e outros objetos de distração e apenas o diálogo e a relação imperam na família;
- Todos gostamos de afeto, logo se queremos recebê-lo é conveniente estar disponível para dar. Os abraços, os beijos, a atenção são fórmulas mágicas para a aquisição de boa disposição na família;  
- Os conflitos entre pai/mãe e filhos (as) são experiências que podem enriquecer toda a família se a sua aceitação resultar em mecanismos para a resolução e empatia desses mesmos problemas.

O fundamental nesta relação é a ligação afetiva/emocional, a conquista de tempo e espaço para todos se ouvirem, se sentirem e se moverem em direção às necessidades de cada um dos membros da família.
Já pensou em quantos "comportamentos de afeto" demonstra diariamente com aqueles que lhe são mais próximos/as? Ser gentil, sorrir, compreender, amar e, também, errar faz parte de ser família.

Mais diálogo, mais tempo, mais respeito, mais afeto e a relação saudável acabará por crescer com vida!


domingo, 14 de maio de 2017

O poder da música


Música é emoção. E emoção é vida. A música faz parte integrante da nossa vida e acompanha grande parte das nossas memórias e vivências mais relevantes. Ela mexe tanto com as nossas emoções: desde o primeiro beijo àquele momento tão difícil. A sua capacidade de influenciar a nossa mente e o nosso corpo é imensa e tem sido entusiasticamente estudada. A título de exemplo, a música tem a capacidade de contribuir para baixar o stress, a depressão e até de promover interação social. A de qualidade, preferencialmente!

Os dias frenéticos que vivemos aceleram-nos de tal forma que não conseguimos parar, levando a que a hormona adrenalina (que nos prepara para lidar com perigos e desafios através do incremento de oxigénio nos músculos, do sangue para o coração e pulmões e que liberta glucose extra no organismo) e a cortisona (hormona que vai amplificar os efeitos da adrenalina, aumentando o açúcar no sangue e concentrando a energia, por exemplo, nos braços e pernas) disparam, colocando-nos no modo “luta ou fuga”. Que é extremamente importante em momentos breves de perigo mas que, com o tempo, se torna negativo contribuindo para o aumento da ansiedade e consequente depressão pela sua constante “ativação” no sistema. É aqui que a música ajuda e muito! Está provado que ouvir música calma diminui os níveis de adrenalina e cortisona no sangue, reduzindo assim o stress. Mesmo em bebés conforme investigadores da Universidade de Toronto.

A música tem também um impacto positivo na resolução da insónia. Num estudo de 2007 realizado na Hungria com jovens adultos com insónias, mais de 80% dos participantes passaram a dormir melhor depois após três semanas a ouvir música clássica antes de dormir.

E quando fazemos desporto? Os estudos dizem também que ouvir música encoraja a pessoa a aumentar o seu ritmo para atingir o da música e que o prazer associado mantém as pessoas no exercício mais tempo. Esse efeito é tão poderoso que é proibida a audição de música em muitas competições desportivas.

Música quando trabalhamos? Aquilo que a investigação nos diz é que a música pode ajudar desde que o som alternativo seja ruído distrativo. Isto é, se estamos a terminar um relatório importante na mesa de um café, a música nos auriculares vai contribuir para a nossa concentração. Por outro lado, se estivermos num local sossegado, a música pode distrair-nos (principalmente com letras!) ao consumir recursos cerebrais que seriam usados para a tarefa em si. Quando esta é simples e até monótona (como aspirar a casa), ouvir música ajuda a manter-nos motivados e enérgicos.

A música também pode aliviar a dor de forma incrível conforme estudos como os dos psicólogos Raymond MacDonald e Laura Mitchell. Estes concluíram que as pessoas suportam a dor durante mais tempo se estiverem a ouvir música (ainda mais se puderem escolher a música que ouvem e controlar o seu volume).

Outro dado que também quero sublinhar é que a música leva à libertação da hormona oxitocina (também libertada durante o parto, a amamentação e o ato sexual) e que melhora o nosso humor, interação social e reduz a ansiedade, aumentando a conexão entre as pessoas. Isto além de facilitar a produção e libertação de dopamina (neurotransmissor ligado ao sistema de recompensa e prazer) e serotonina (neurotransmissor de grande relevância para o nosso humor, no apetite ou no desejo sexual).

A música influencia o nosso comportamento de consumo, é outro dos seus efeitos. Ronald Milliman, professor de marketing nos USA, descobriu que a música calma e relaxante num restaurante faz com que as pessoas comam mais lentamente e consumam mais bebidas durante a refeição. E este efeito acontece também quando estamos no centro comercial - quando a música envolvente é lenta e calma, podemos ver mais lojas e comprar mais produtos. Acrescento ainda que se ouvirmos música tradicional de um país específico como música ambiente, tendemos a comprar mais produtos dessa mesma região se em comparação com produtos de outras origens. Nem damos conta destes efeitos diários mas a psicologia e o marketing dão-nos aqui uma grande ajuda.

A música é tão antiga que podemos encontrá-la em todas as culturas e sociedades do mundo, sendo de supor que está ligada à sobrevivência da nossa espécie. Um grupo de pessoas que tenha uma música consigo, torna-se mais coeso e resiliente perante obstáculos - aqui lembro-me imediatamente do famoso Haka da equipa de rugby da Nova Zelândia onde a dança se combina com cânticos num todo verdadeiramente explosivo ou o imortal Hino de Portugal "A Portuguesa", criado em 1911, e que me deixa arrepiado de cada vez que o ouço!

Muito me fica por escrever sobre a influência psicológica da música na nossa vida. Mas ninguém fica indiferente à canção interpretada por Salvador Sobral e escrita por Luísa Sobral e que venceu o Festival da Eurovisão de 2017. Porque música é emoção. E emoção é vida. E a sua capacidade de nos fazer sentir profundamente, de nos surpreender, de nos tocar, de nos aproximar e de nos levar ao que é mais simples e importante - o Amor - faz da canção “Amar Pelos Dois” uma obra intemporal. Um grande obrigado.


domingo, 23 de abril de 2017

Insónia

 

  Há 3 noites que não durmo.

  Bem, não durmo como as pessoas costumam dormir porque estou em crer que o sono me tolda o olhar, por pequenos períodos de tempo, durante o dia, no meio da luz e do barulho, quando tento dialogar com alguém.

  Na verdade, penso que estarei a exagerar. Continuo a conhecer a faceta anestesiante do sono, que me deita por terra quando me sento no sofá, logo após o jantar. Aí sim, o sono invade-me com tal violência que não consigo resistir-lhe, por muito que queira, por mais que deseje fazer acontecer um serão descontraído que me prepare para dormir uma noite inteira. Não, o sono simplesmente atinge-me e eu desmaio, atingido por esse golpe fatal.

  São provavelmente os 45 minutos mais desejados das 22 horas que vivo sem interrupções. Não se prolongam além dessa duração, já lá vão 3 noites.

  Há 3 noites que acordo com o fim do noticiário. O encerramento do dia para a grande maioria das pessoas é apenas o início do meu pesadelo.

  No primeiro dia ainda não sabia o que me esperava. Acordei, dorido da posição em que permanecera por esses parcos minutos, ou então pela pancada violenta com que o sono me atingira. Estremunhado, vesti o pijama e enfiei-me na cama, resmungando qualquer coisa para o gato que me seguiu. Assim que me deitei, todo o meu corpo começou a despertar, tornando-se consciente e agitando-me. Os pequenos desconfortos depressa se tornaram insuportáveis, fazendo-me rodar, de um lado para o outro, como se existisse uma posição que pudesse acalmar todo o turbilhão. Estive nisto durante 4 horas. Quatro horas.  

  Acabei por me levantar da cama, desperto para uma madrugada ainda muito jovem. Era uma e vinte da manhã quando entrei na cozinha, desejando que a noite estivesse perto do fim. Uma parte de mim pensou: “Ah, ainda bem que é cedo, ainda vou conseguir dormir umas horinhas antes de o despertador tocar”. Bebi um copo de leite morno e deixei-me ficar a olhar pela janela, observando o trânsito ainda regular, apesar da hora. A casa pareceu-me enorme, como se a noite tivesse o poder de nos tornar menores face à imensidão da noite. Do tempo que demora a noite.

  Foi a primeira eternidade que enfrentei, aquela que passei a observar a escuridão, encostado à janela. O gato dormia, aninhado no local onde o meu corpo deveria repousar, inconsciente. Assim que o escuro da noite começou a aclarar, um peso desceu sobre o meu corpo que me fez ter vontade de me deitar na cama. Cuidadosamente, para não acordar o gato, deitei-me, encolhido, pensando que dormir seria impossível.

  Comecei a ouvir um barulho irritante ao longe, uma campainha ou algo semelhante e dei comigo a acordar para um dia cheio de sol. Tinha adormecido e o barulho era, nem mais nem menos, o meu despertador, cansado de tanto repetir-se. Levantei-me de um salto e percebi que já estava atrasado. Devo ter dormido entre 35 a 50 minutos.

  No segundo e terceiro dia, já não fui surpreendido por todo este processo que agora vos conto. Aliás, acho até que o pressenti. E temo que esta noite nada de diferente aconteça. Este medo que me consome mantém-me acordado. E exausto.

  Este medo de não dormir desperta-me. 

domingo, 16 de abril de 2017

Páscoa: Renascer para crescer



A Páscoa e a Primavera são momentos do ano que nos podem ensinar lições importantes, se estivermos dispostos a aprender. 

A Primavera é uma época de crescimentos novos. Os sinais de mudança estão à nossa volta: flores que nascem, árvores que florescem, dias que estão mais longos, luminosos e quentes e as nossas emoções que também se elevam com esta luz extra e o aumento da temperatura.

Neste momento, aprendemos que podemos florescer e produzir a seguir a um Inverno rigoroso e podemos ter de passar por momentos menos agradáveis para começar a investir em nós e no que queremos para a nossa vida. Também precisamos mergulhar em emoções desagradáveis, para contactar com o que sentimos, ser mais verdadeiros connosco e com os outros para nos sentimos melhor.

A Páscoa, sendo um período tipicamente de renascimento, reflexão e renovação, pode ser uma inspiração, mesmo para quem não se identifica com nenhuma religião.

O que precisa de renovar na sua vida?

Quais são os seus objectivos/metas neste momento?

Começando pela sua casa ou o sítio onde vive, pode precisar de mudar algumas coisas para se sentir melhor, seja a disposição dos móveis, adquirir flores ou mudar as cores que determinadas divisões têm. Pode parecer algo pequeno, mas dá ao seu cérebro a sensação de novidade e pode contribuir para um melhor humor e motivação para alcançar novos objectivos.

Faça uma análise à sua vida, nas suas várias áreas e veja que transformações deseja fazer. Pode até escrevê-las num papel, pensando depois em tudo o que precisa ser feito para lá chegar. Por exemplo, para mudar de emprego e encontrar um onde se sinta mais realizado/a pode precisar primeiro de reflectir no tipo de empregos/áreas onde gostaria de trabalhar, pesquisar as empresas com esse tipo de função, investir nas suas competências para a função (através de formação ou aquisição de conhecimento), melhorar as suas competências pessoas e sociais para se sentir bem no dia-a-dia de trabalho a contactar com colegas e chefia, entre muitas outras coisas…

Quando se fala de renascimento, lembro-me sempre do renascimento interno, e não podia deixar de falar na necessidade importantíssima de cuidar de si. Se está sempre à procura da mudança no exterior, é sinal que pode precisar de cuidar da sua mudança no interior para que a mudança exterior a acompanhe. Cuide de si, seja presenteando-se com algo que goste, seja tendo compaixão e compreensão por si mesmo/a. Sabia que mesmo que tenha tendência a ser muito exigente consigo, faz a cada momento o melhor que pode fazer? Não está sempre com a energia, motivação, criatividade e foco no máximo da sua capacidade e isso é natural, legítimo e permitido.

Pegue numa folha de papel, faça uma lista das coisas que gostava de mudar na sua vida, acredite em si e respeite o seu ritmo para fazer determinadas mudanças, peça ajuda quando for necessário (sem culpa), olhe para as suas características valiosas, recicle o ambiente à sua volta, seja a sua casa ou as relações que tem e que já não fazem sentido. 

Renascer é sempre possível!
Boa Páscoa!